11 Pessoas Desapareceram No Mesmo Trecho Da BR-163 — O Documentário Que Nunca Terminou
11 Pessoas Desapareceram No Mesmo Trecho Da BR-163 — O Documentário Que Nunca Terminou
Em 7 de novembro de 2009, Marlúci Evangelista Pires ligou para a delegacia de Novo Progresso no Pará às 22:40 da noite. Ela disse que o marido tinha saído naquela manhã na caminhonete branca, que ia buscar umas peças em Guarantã do Norte, que eram 347 km de BR163, que ele conhecia aquela estrada de cor que nunca tinha dado problema nenhum e que não estava chegando.
O atendente anotou o nome, o número da placa e disse que tinha que esperar 48 horas. Marlu disse que conhecia aquela estrada, que naquele trecho esperar 48 horas podia ser o mesmo que esperar para sempre. O atendente disse que era procedimento. Valenir Pires tinha 47 anos, cabelo grisalho nas têmporas, uma cicatriz no queixo de uma queda de moto quando era mais novo.
Tinha dois filhos na escola em novo progresso. Tinha caminhonete Hilux branca, placa de Mato Grosso, com o vidro do passageiro, que não fechava direito e que ia consertar na oficina assim que voltasse. Ele nunca voltou. A caminhonete foi encontrada três dias depois num ponto de bifurcação que os caminhoneiros chamavam de camion 282. Estava com o motor desligado, as portas fechadas, as janelas fechadas e a chave na ignição, na posição de ligado.
O tanque estava com um terço de combustível. A mochila de Valdenir estava no banco de trás. Dentro dela havia uma muda de roupa, um documento plastificado, um sanduíche de pão de forma com mortadela que Marluci tinha feito antes de ele sair e R$ 140 em dinheiro. Nenhuma marca de violência, nenhum bilhete, nenhuma testemunha que tivesse parado naquele trecho entre o amanhecer e o cair da noite.
Mas Valdenir Pires não era o primeiro, ele era o 11º. Entre 1987 e 2009, 10 pessoas tinham desaparecido naquele mesmo trecho da BR163 numa faixa de estrada de menos de 400 km que corta o sul do Pará e a fronteira com o Mato Grosso. 11. Contando, Valdenir, 11 pessoas, cinco delegacias diferentes, cinco boletins de ocorrência que nunca se cruzaram no sistema, nenhum inquérito conjunto, nenhuma investigação federal e um documentarista de São Paulo chamado Renato Mascarenhas, que em 2010 chegou naquele trecho com uma câmera Sony e uma planilha impressa com os 11
nomes e que filmou durante 18 meses e que nunca terminou o documentário. O que ele encontrou, o que ele gravou e o que ele deixou para trás é o que vamos contar aqui. Mas antes, há algumas coisas que você precisa saber. A BR160 não é uma estrada comum. Ela nasce em Cuiabá e vai até Santarém, no coração do Pará.
São mais de 1700 km e o trecho entre Guarantando Norte e Novo Progresso é o mais isolado deles. Em 2010, quando Renato chegou, ainda havia mais de 200 km sem asfalto, sem sinal de celular, sem postos de combustível, sem câmera de segurança, sem nada. As 11 pessoas que desapareceram nesse trecho não se conheciam.
Elas não viajavam juntas, não tinham vínculos aparentes entre si, mas tinham uma coisa em comum. Todas estavam sozinhas, ou quase, quando foram vistas pela última vez naquele ponto da estrada. Renato Mascarenhas passou 18 meses entrevistando famílias, caminhoneiros, agentes da Polícia Rodoviária Federal e moradores de municípios que mal aparecem no mapa.

Ele gravou mais de 200 horas de material bruto. Ele construiu uma linha do tempo que conectava os 11 casos de um jeito que nenhum delegado tinha feito antes. E então, em setembro de 2011, ele fechou a câmera e parou de gravar. O documentário nunca ficou pronto. Renato morreu em janeiro de 2015.
O HD externo, onde ele guardava o material bruto foi encontrado pela irmã dele, Fernanda, numa caixa debaixo da cama de um quarto alugado em Cuiabá. Dentro havia fragmentos de entrevistas, arquivos de vídeo corrompidos e um documento de texto com 112 páginas que ele nunca terminou de escrever. Você ficou aqui porque sabe que uma estrada não engole 11 pessoas por acaso e o que vem agora vai mostrar porque essa história nunca fechou.
O trecho da BR163 entre Guarantã do Norte, no norte do Mato Grosso e Novo Progresso, no sul do Pará, tem 347 km. Você pode ver isso no mapa. O que o mapa não mostra é o que está dos dois lados da pista, à esquerda e à direita da estrada, de meados dos anos 80 até pelo menos 2005, havia mata densa, cerrado alto e, em determinados trechos, floresta fechada que bloqueava a luz do sol até o meio-dia.
Havia também ramais de terra sem nome que abriam para dentro do mato e desapareciam depois de 2 3 km. Alguns levavam a garimpos clandestinos, outros levavam a serrarias ilegais, outros simplesmente paravam no nada, abertos por tratores que iam buscar madeira e nunca mais voltaram a usar aquele caminho. Em 1987, quando o primeiro desaparecimento foi registrado nesse trecho, a BR160, 13 era uma estrada de terra vermelha.
compactada que virava lama no período das chuvas e levantava uma nuvem de pó vermelho no período da seca. Os caminhoneiros que faziam aquela rota regularmente sabiam que havia trechos onde a picada afundava mais de um palmo e onde um veículo sem tração nas quatro rodas ficava preso com facilidade.
Eles sabiam também que era comum passar horas sem ver outro veículo. Naquele tempo não havia celular. A comunicação era feita por rádio CB e o sinal não chegava em todos os pontos. A Polícia Rodoviária Federal tinha um posto em Guarantão do Norte e outro em Novo Progresso. Entre os dois havia mais de 300 km de estrada com presença institucional praticamente nenhuma.
Uma patrulha passava vez ou outra, mas não havia protocolo fixo, não havia câmera, não havia registro de movimento de veículos. Aquela estrada era, na prática, um espaço sem testemunhas. O contexto daqueles anos ajuda a entender o tipo de gente que passava por ali. Estávamos no auge da colonização desordenada do sul do Pará.
O governo federal tinha criado programas de assentamento que atraíam famílias do Nordeste, do Centro-Oeste, do sul do Brasil, que vinham com a esperança de um lote de terra e ficavam presas numa estrutura fundiária violenta e sem lei. Junto com as famílias de colonos viajavam também os os madeireiros, os madeireiros, os garimpeiros, os pistoleiros contratados para expulsar quem estava onde não devia estar, segundo os interesses de quem pagava.
A BR163 era o corredor por onde passava tudo isso. Caminhões de madeira, camionetes de grileiros, ônibus de trabalhadores rurais, combi com missionários, carros com famílias tentando chegar num lote que às vezes não existia mais quando chegavam. E de vez em quando alguém entrava naquele trecho e não chegava do outro lado.
Quando Renato Mascarenhas mapeou os 11 desaparecimentos pela primeira vez, ele percebeu que nenhum deles tinha ocorrido nos extremos da estrada, perto de Guarantã do Norte ou perto de Novo Progresso, onde havia algum movimento, alguma testemunha possível. Os 11 casos estavam concentrados numa faixa de pouco mais de 120 km nos trechos central, onde a estrada ficava mais isolada e onde os ramais para dentro da mata eram mais frequentes.
Ele anotou isso no documento, escreveu que havia uma concentração geográfica clara e sublinhou. Depois escreveu uma pergunta que ficou sem resposta por toda a duração do projeto, porque ninguém tinha visto isso antes. A resposta era simples e incômoda, porque ninguém tinha olhado para os 11 casos ao mesmo tempo. Cada delegacia tinha tratado o seu como um caso isolado, e casos isolados naquela região naquele tempo se fechavam sozinhos por falta de pistas, por falta de recursos, por falta de vontade.
Ficaram abertos sem resposta, sem culpado, sem corpo, na maioria dos casos. Apenas um nome num registro de delegacia que ninguém mais ia abrir. O primeiro nome da lista de Renato era José Mauro Vasconcelos. Todo mundo chamava de Zé Mauro. Ele tinha 41 anos em novembro de 1987. Era natural de Rondonópolis, Mato Grosso, onde tinha nascido, crescido e aprendido a dirigir caminhão com o pai.
Casado há 18 anos com Neusa, tinha três filhos, sendo a mais nova com apenas 5 anos. Trabalhava como transportador autônomo, fazendo rotas entre Cuiabá e Santarém, levando carga de fertilizante na ida e madeira ou grão na volta. Zé Mauro conhecia a BR163 tão bem quanto conhecia o quintal da própria casa.
Sabia em qual trecho a estrada afundava mais. sabia onde parar para comer, sabia quais postos tinham diesel adulterado. Era, segundo todos que o conheciam, um homem metódico, cauteloso, que nunca deixava de avisar quando ia chegar atrasado. No dia 18 de novembro de 1987 às 14:20 ele fez seu último contato por rádio CB com um colega caminhoneiro chamado Neri, que estava vindo no sentido contrário.
Zé Mauro disse que estava no trecho do camo 240, que o tempo estava bom, que a estrada estava firme depois de uma semana de seca. disse que esperava chegar em novo progresso antes de escurecer. Neri chegou em Guarantã do Norte às 18 horas. Zé Mauro nunca chegou em novo progresso. O caminhão foi encontrado dois dias depois, no acostamento do Camemo 258, motor desligado, sem nenhuma marca de colisão ou derrapagem.
A carga de fertilizante estava intacta. A carteira de Zé Mauro estava no porta-luvas com documentos, dinheiro e uma foto pequena dos filhos. O casaco dele estava dobrado no banco do passageiro. O boletim de ocorrência foi registrado na delegacia de novo progresso como desaparecimento voluntário. O delegado de plantão escreveu no relatório que era provável que o motorista tivesse descido para atender uma necessidade fisiológica e se perdido na mata.
recomendou uma busca no entorno do veículo, que foi feita no dia seguinte por quatro policiais e dois voluntário. Eles caminharam por um raio de 2 km em volta do caminhão e não encontraram nada. Neusa, a esposa de Zé Mauro, foi de Rondonópolis a novo progresso de ônibus com a filha mais velha. ficou duas semanas, conversou com quem conseguia, voltou sem resposta nenhuma.
Ela esperou Zé Mauro durante anos, não porque achasse que ele estava vivo depois de algum tempo, mas porque, sem um corpo, sem uma certidão, sem qualquer confirmação. A espera era a única coisa que a lei e o coração aceitavam como posição. O que Renato encontrou mais de 20 anos depois, quando entrevistou um caminhoneiro aposentado que trabalhava naquela rota nos anos 80.
Foi um detalhe que nunca tinha aparecido em nenhum registro oficial. O homem contou que nas semanas antes do desaparecimento de Zé Mauro, havia aparecido um ramal novo no camo 255, aberto na mata, com marcas de trator fresco e que ninguém sabia para onde ele levava. Renato anotou, filmou o ponto, tentou entrar no ramal, mas estava tomado pela vegetação depois de tantos anos.
Voltou ao carro, ficou sentado na beira da estrada por alguns minutos, olhando para a mata fechada dos dois lados. Depois ligou a câmera e disse para si mesmo em voz baixa, que ninguém tinha entrado naquele ramal desde 1987. Ele não sabia se aquilo era verdade, mas era a única coisa que havia para dizer naquele momento.
Dois anos depois de Zé Mauro, a lista ganhou mais três nomes de uma só vez. Em março de 1989, Geraldo Cardoso, sua esposa Nair e o filho deles, Fábio, de 17 anos, saíram de Cárceres, no Mato Grosso, numa Volkswagen Brasília, azul claro, com a placa coberta de fita adesiva, porque a tinta estava descascando. Eles iam para um lote de terra que Geraldo tinha comprado de um atravessador por uma quantia que representava as economias de 10 anos de trabalho numa fazenda de gado.
O lote ficava num assentamento irregular perto de Trairão, no Pará. Geraldo tinha o papel de compra e venda assinado. O papel não valia nada, como muitos daqueles documentos daquela época não valiam. Mas ele não sabia disso ainda. Achava que estava indo começar uma vida nova. Eles pararam para abastecer em Guarantã do Norte na tarde de uma quarta-feira.
O frentista que atendeu se lembrou deles porque Nair tinha pedido um copo d’água e o menino tinha comprado uma bala no caixa. O frentista disse que o pai olhava para o mapa enquanto o carro abastecia, que parecia saber para onde ia. A Brasília Azul entrou no trecho central da BR163 em direção ao norte.
Ninguém os viu mais. O carro nunca foi encontrado. Um parente que esperava os Cardosos chegar em Trairão avisou a Polícia Rodoviária Federal. Depois de cinco dias de silêncio, a família de Geraldo, em Cárceres, ligou para todas as delegacias que conseguiu ao longo da rota. Nenhuma tinha registro de acidente, nenhuma tinha registro de parada.
O carro não tinha aparecido em nenhum pátio de depósito ao longo de toda aquela região. O sumo de um carro inteiro com três pessoas dentro era mais difícil de explicar como perda na mata do que o caso de Zé Mauro. Mas a delegacia de Guarantã do Norte registrou o caso como paradeiro desconhecido e encaminhou para o Ministério Público Estadual, que arquivou por falta de provas de crime.
Nair tinha uma irmã chamada Zelinha, que morou naquela dúvida por décadas. Zelin era 20 anos mais nova que Nair e tinha ficado em Cácceres. Era ela quem ligava todo ano para a delegacia e todo ano ouvia a mesma coisa, que o caso estava aberto, que não havia novidades. Quando Renato chegou para entrevistá-la, em 2010, Zelinha tinha 62 anos e morava num sobrado atrás de uma barbearia no centro de Cácceres.
Ela recebeu Renato na sala com a televisão muda ao fundo e ficou mais de uma hora falando sobre Nair, não sobre o desaparecimento, sobre Nair, sobre como ela ria, sobre o jeito que ela dobrava o pano de prato, sobre o perfume que ela usava nos domingos. Renato gravou tudo. Ficou quieto durante a entrevista, sem interromper, sem direcionar.
Depois que Zelinha terminou, ela disse que nunca tinha conseguido fazer uma missa de sétimo dia para Nair, porque sem confirmação de morte a missa fechava, ficava em aberto, igual ao caso. Zelinha morreu em 2013, antes do documentário de Renato ficar pronto. Ela não soube a resposta. A maioria das pessoas que Renato entrevistou também não souberam.
De 1991 a 2001, seis nomes foram acrescentados à lista. Seis pessoas, seis casos diferentes, seis delegacias diferentes, seis boletins de ocorrência que nunca foram cruzados entre si. Era como se cada desaparecimento tivesse ocorrido num país diferente, numa estrada diferente, sem nenhuma ligação com o anterior.
O primeiro desse período foi Amarildo Rego, um topógrafo de Sinope, que desapareceu em julho de 1991 durante uma expedição de medição de terras. Ele estava sozinho porque o parceiro de trabalho tinha ficado doente. Seu equipamento de topografia foi encontrado numa área de mata às margens da estrada, mas Amarildo não.
Os colegas disseram que ele era experiente no campo. A empresa onde trabalhava registrou o BO, pagou o salário do mês e fechou o prontuário. Em 1993, uma mulher chamada Dirce Lima Paz, de 44 anos, estava viajando de ônibus de Cuiabá para Altamira, quando desceu no ponto de parada do Camemo 27 para ir ao banheiro do posto.
O ônibus esperou 15 minutos e partiu sem ela, porque o motorista achou que ela tinha desistido da viagem ou pegado carona. Dirce nunca chegou em Altamira. O marido dela, que esperava na rodoviária, ficou três dias esperando antes de dar queixa. Você conseguiria continuar sua rotina, sabendo que alguém que você ama não chegou no ônibus e não deu mais sinal? Dirce tinha uma filha pequena em casa.
O marido contou que ficou imaginando o que diria para a menina se a mãe não voltasse. Ele não precisou imaginar por muito tempo. A menina cresceu sem a mãe. Em 1995, dois homens, Lindomar e Caetano Nascimento, irmãos que faziam transporte alternativo entre os municípios do trecho, sumiram com o carro dele.
Ford Belina Vermelho. Numa manhã de setembro, eles tinham levado passageiros até Guarantã do Norte e iam voltar a Novo Progresso. Não voltaram. O carro, como dos Cardoso, nunca foi encontrado. Em 1998, um rapaz de 22 anos chamado Wendel Santos Mota estava na estrada tentando pegar carona de Guarantã do Norte para Trairão.
Tinha sido visto na beira da pista às 6 da manhã por um caminhoneiro que não parou. O caminhoneiro disse isso para a polícia mais de um ano depois, quando soube pelo rádio que havia uma busca pelo rapaz. E em 2001, Sandro Eulho Ferreira, 28 anos, fotógrafo amador de Cuiabá, que fazia documentação para uma ONG de direitos ambientais, foi a última pessoa a desaparecer no trecho antes de Valdenir Pires em 2009.
Sandro tinha uma câmera analógica e um caderno de anotações. Nenhum dos dois foi encontrado. A mãe de Sandro se chamava Eunice. Eunice Ferreira foi a primeira pessoa que Renato entrevistou quando chegou naquela região. Renato disse que quando ela abriu a porta e ele se apresentou como documentarista, pesquisando os desaparecimentos da BR163, ela ficou parada por quase um minuto olhando para ele.
Depois disse que ele era o primeiro que havia chegado, a primeira pessoa em quase 10 anos que tinha batido a porta de Eunice para perguntar sobre Sandro. Ela recebeu Renato na cozinha, colocou café, ficou duas horas falando e o que ela contou estava no HD. Em um fragmento de 23 minutos, áudio um pouco abafado, câmera na mão, fora de foco em alguns momentos, mas com cada palavra clara, cada detalhe que a polícia nunca anotou, o pior ainda não tinha chegado.
Mas você já sabe que está perto. Renato Mascarenhas tinha 36 anos quando chegou em Guarantiro de 2010. Era paulistano, filho de um contador de Santo André e de uma professora de português. Tinha estudado jornalismo na USP e passado a primeira metade dos anos 2000, fazendo vídeos institucionais para empresas, o tipo de trabalho que paga o aluguel e deixa a cabeça livre para outras coisas.
As outras coisas, no caso de Renato, eram projetos documentais que ele desenvolvia no tempo livre e que nunca tinham saído do papel até aquele momento. O projeto da BR163 nasceu de um artigo que ele leu num suplemento de domingo de um jornal de Cuiabá em 2008. O artigo era pequeno, uns 15 parágrafos sobre os desaparecimentos na estrada.
Não mencionava todos os casos, mencionava cinco, mas havia uma frase no final que Renato guardou no caderno de projetos, dizendo que nenhum dos cinco casos havia sido investigado em conjunto, apesar de ocorridos no mesmo trecho, em intervalo de menos de 15 anos. Renato passou 2 anos fazendo o que chamava de pré-pesquisa.
escreveu para delegacias, para o Ministério Público Estadual, para Defensoria Pública, para PRF. cruzou boletins de ocorrência que conseguiu via pedido de acesso à informação. Fez ligações para prefeitura, rastreou famílias pelas páginas de uma rede social que estava começando a se popularizar naquele momento.
Quando chegou em Guarantã do Norte com a câmera Sony e a planilha impressa, ele tinha documentação suficiente para confirmar 11 desaparecimentos no trecho entre 1987 e 2009. 11 nomes com data aproximada, local aproximado e, na maioria dos casos, um familiar que ainda estava vivo e disposto a falar.
A planilha tinha uma coluna para cada tipo de informação. Renato a chamava de mapa da saudade. Ele ficou na região por períodos alternados ao longo de 18 meses. Ficava de duas a quatro semanas, voltava a São Paulo para trabalhar, voltava para o campo. ficou hospedado num hotel simples em Guarant, com ar- condicionado barulhento e uma televisão que só pegava dois canais.
Comia no restaurante da dona Conceição, uma goiana que tinha aberto aquele lugar na década de 90 e que sabia de cor todos os casos de sumisso da região, porque os caminhoneiros sempre comentavam. Dona Conceição foi, segundo Renato anotou no documento, uma das fontes mais ricas que ele tinha. Não porque ela tivesse informação oficial, porque ela tinha memória.
Ela se lembrava de Zé Mauro, que tinha comido no restaurante dela umas três ou quatro vezes. Ela se lembrava dos irmãos Lindomar e Caetano, que eram clientes regulares. Ela se lembrava de Sandro Euláo, que tinha passado por ali com a câmera no pescoço e pedido indicação de onde ficar.
Renato gravou dona Conceição durante 4 horas. Depois foi à beira da estrada, num ponto que os motoristas chamavam de curva do pau caído, onde um IP enorme tinha tombado depois de uma tempestade em 1992 e ficado ali por anos até que os bombeiros o cortaram. Renato ficou filmando a estrada por uns 20 minutos. Em silêncio, a câmera apontada para o asfalto irregular, para a mata fechada dos dois lados, para o horizonte reto, que subia e descia em ondas suaves.
Depois disse para a câmera em voz calma, que ali a paisagem não guardava nada, que você olhava e não via, mas que alguma coisa tinha acontecido ali. 11 vezes, as entrevistas de Renato seguiam sempre o mesmo padrão. Ele chegava sem avisar ou avisava com pouca antecedência, não porque quisesse surpreender, mas porque as famílias que moravam fora dos centros maiores não tinham e-mail, nem sempre tinham celular com sinal suficiente.
Ele chegava, se apresentava, mostrava a câmera e pedia licença para sentar. A maioria das famílias deixou entrar. O que ele ouvia nessas visitas não era sobre pistas. Não era sobre suspeitos, não era sobre teorias, era sobre rotina, era sobre vida. Era a tentativa que as famílias faziam, sem perceber, de fazer a pessoa desaparecida existir de novo por alguns minutos na sala delas, para alguém que estava escutando com atenção.
Dona Eunice Ferreira, mãe de Sandro, contou sobre os fins de tarde, que o filho passava revelando foto no banheiro de casa que ele tinha transformado em câmara escura. Ela dizia que o cheiro dos químicos de revelação ficou impregnado no azulejo por anos depois que ele foi embora. A viúva de Zé Mauro, Neusa, que Renato encontrou em Rondonópolis, contou que durante muito tempo lavava a roupa do marido junto com a dela, aquelas poucas peças que ficaram em casa, como se lavar e dobrar fosse uma forma de manter uma porta aberta.
Você já lavou a roupa de alguém depois que esse alguém foi embora e não voltou? Você sabe o peso desse gesto. A irmã de Dirce, a mulher que tinha descido ônibus e desaparecido em 1993, disse a Renato que por anos acreditou que Dirse tinha fugido. Não de caso, não por motivo nenhum que ela conseguisse nomear, mas que havia uma parte dela que preferia acreditar nisso, aceitar a outra possibilidade.
disse que sabia que não fazia sentido, mas que era mais fácil estar com raiva dela do que estar com medo. Renato deixou isso no arquivo como estava, sem comentário, sem julgamento. Havia também a família de Wendell, o jovem que fazia carona em 1998. A mãe de Wendel morava em Novo Progresso, na mesma rua onde morava quando o filho desapareceu.
Ela contou que Wendel tinha ido aguarantando norte para tentar resolver um problema com um documento e estava voltando na mesma tarde. Tinha ligado da cidade antes de sair, dizendo que estava bem. Depois nada. A mãe de Wendel tinha guardado no envelope plástico a certidão de nascimento dele junto com um bilhetinho que ele tinha escrito para ela quando estava aprendendo a ler aos 6 anos.
A letra torta, a palavra mãe escrita com tio no a frase inteira sem sentido gramatical, mas com sentido perfeito para ela. Renato filmou o envelope na mão dela, não filmou o interior. Ela não quis abrir na frente da câmera. O que Renato foi percebendo à medida que acumulava essas entrevistas era que todas as famílias carregavam versões diferentes da mesma coisa, a exaustão de não saber.
Não a dor aguda da perda, que tem começo, meio e algum espaço para fechar. A dor crônica da ausência sem explicação, que não tem onde se apoiar, que não tem ritual, que não tem certidão, que não tem palavra. Uma das mulheres, que preferiu não ter o nome gravado, disse que a pior parte não era que ele tinha sumido. A pior parte era que o mundo tinha continuado e ninguém mais perguntava.
Renato gravou aquela frase e voltou a ela muitas vezes no documento que foi escrevendo. Ela estava na página 64. Depois de meses de entrevistas, Renato começou a trabalhar com os dados que tinha acumulado. Não era o tipo de análise que um delegado faz com equipamento de perícia e banco de dados integrado. Era uma análise artesanal feita na mesa do hotel com a planilha impressa, o caderno de anotações, um mapa da BR160 e três pendurado na parede com fita crepe e canetas coloridas para marcar os pontos de cada desaparecimento.
O que a planilha começou a mostrar depois de algumas semanas de cruzamento eram padrões. O primeiro padrão era geográfico, como Renato já tinha notado antes. Dos 11 desaparecimentos, nove tinham ocorrido numa faixa de 140 km entre o Camamo 230 e o Camamo 370. Isso correspondia à parte da estrada mais afastada de qualquer município, com presença efetiva de polícia ou bombeiro.
Era também o trecho com maior densidade de ramais para dentro da mata, segundo um mapa antigo do Incra que Renato tinha conseguido numa biblioteca pública em Sinope, o segundo padrão era temporal. Os desaparecimentos tinham ocorrido em sua maioria entre os meses de maio e novembro, que correspondia ao período de seca na região.
No período de seca, a estrada era mais transitável, o volume de veículos era maior e, paradoxalmente, era mais fácil para alguém se mover pela área sem deixar rastro. Na época da chuva, a lama retinha marcas. Na seca, a terra dura não guardava nada. O terceiro padrão era o mais incômodo. Oito dos 11 casos tinham em comum característica que Renato foi descobrindo ao longo das entrevistas com familiares e com caminhoneiros da época.
As pessoas desaparecidas tinham parado, ou possivelmente parado, em pontos específicos da estrada, que eram conhecidos como locais de troca de informação entre quem viajava. Não eram postos de combustível oficiais. Eram paradas informais embaixo de árvores, perto de bifurcações, onde os motoristas costumavam parar para trocar informação sobre o estado da estrada mais à frente.
Em três casos, havia relatos de que a pessoa desaparecida tinha sido vista conversando com alguém nessas paradas. Em dois casos, havia descrição vaga de um veículo, geralmente uma caminhonete ou um caminhão pequeno, que estava estacionado naquele ponto no mesmo horário em que a pessoa desapareceu. Renato foi cauteloso com isso no documento.
escreveu que aqueles relatos tinham mais de 15 anos de distância e tinham sido colhidos de memória, sem confrontação cruzada, que não podiam ser tratados como evidência, mas que também não podiam ser ignorados. Ele também encontrou, através de um contato no Ministério Público do Pará, um registro de uma operação policial que havia ocorrido em 2003, naquela área da BR163, voltada para combate ao tráfico de madeira ilegal.
Durante a operação, os agentes tinham identificado uma rede de ramais usados para transporte clandestino de tóx. Alguns desses ramais correspondiam no mapa de Renato a pontos próximos onde os desaparecimentos tinham ocorrido. Ele não afirmou nada sobre isso. Colocou as duas informações lado a lado na planilha, deixou a coincidência visível, mas havia uma quarta coisa que Renato não conseguia encaixar na lógica dos outros padrões.
Dois dos 11 casos eram de pessoas que, segundo os familiares, tinham parado no trecho por motivos não planejados. Zé Mauro tinha feito uma parada não anunciada por rádio. Amarildo, o topógrafo, tinha desviado do roteiro original para medir uma área que apareceu em campo. Esses dois casos não se encaixavam no padrão das paradas informais de informação.
Eram paradas imprevistas, impossíveis de antecipar. O que isso significava? Renato não sabia responder. Escreveu na página 78 do documento que o que conectava aqueles 11 casos não era só o lugar, que havia alguma coisa que ele ainda não conseguia nomear. Essa observação ficou na página 78, sem continuação, porque foi pouco depois daquele momento que algo mudou.
Em setembro de 2011, Renato estava em seu quarto no hotel de Guarantã do Norte, quando recebeu uma visita que não esperava. Dois homens bateram na porta às 21 horas. Renato descreveu o episódio em detalhe no documento. Disse que os homens estavam bem vestidos para o contexto local, que um deles tinha uma pasta de couro, que o outro ficou parado perto da porta durante toda a conversa.
Eles disseram que eram advogados de um empresário da região que tinha ficado sabendo do documentário e que queria conversar sobre os limites legais de uso de imagens de propriedades privadas. Renato disse que não tinha filmado nenhuma propriedade privada. Eles disseram que havia dúvidas sobre isso, que seria melhor conversar com o cliente antes de continuar o trabalho.
Renato pediu o nome do cliente. Eles não disseram. Deixaram um cartão com um número de telefone, sem identificação de escritório ou pessoa e foram embora. Renato ligou para a irmã naquela noite e contou o episódio. Fernanda, que estava em São Paulo, disse a ele para comunicar a Polícia Rodoviária Federal e para não abrir mais a porta sem saber quem era.
Renato fez o comunicado. A PRF disse que ia registrar o fato. Nenhum registro foi localizado depois. Mas o que aconteceu nos dias seguintes foi que Renato parou de sair com a com a câmera, ficou no hotel, continuou escrevendo o documento, continuou revisando o material gravado, mas não filmou mais nada por três meses.
Fernanda disse em 2019, quando uma jornalista independente de Belém conseguiu uma entrevista por telefone, que o irmão ficou diferente depois daquele setembro, não assustado, diferente como alguém que entendeu que estava olhando para alguma coisa maior do que tinha calculado e que não sabia mais exatamente como continuar.
Em dezembro de 2011, Renato voltou a São Paulo. Ficou três meses. Retomou trabalhos de vídeo institucional para pagar as contas. Conversou com produtores de documentário que conhecia, tentando encontrar apoio financeiro para terminar o projeto. Não encontrou. Os produtores diziam que o material era interessante, mas que sem uma linha narrativa clara, sem resolução, sem um culpado ou um herói, era difícil encaixar numa grade de programação.
Em março de 2012, ele voltou para a região, mas dessa vez ficou em novo progresso, não em Guarante. disse a Fernanda que precisava de uma perspectiva diferente. Fez mais algumas entrevistas. Refez o percurso do trecho central da estrada umas três vezes, filmando pela janela do carro alugado, a câmera apoiada no vidro aberto.
Foi ao arquivo do cartório de novo progresso e pediu acesso a registros de propriedade de terrenos na zona rural que bordejavam o trecho central da BR. A atendente disse que precisaria de uma ordem judicial. Ele foi embora sem a ordem. Em junho de 2012, voltou a São Paulo definitivamente. O documento de 112 páginas ficou na última versão salva em 22 de junho de 2012, às 18:47.
A data e hora de modificação estava visível no arquivo quando Fernando abriu depois da morte do irmão. Renato nunca mais editou o documento depois daquela data. Nunca terminou o documentário, nunca publicou nada do que havia apurado, o que estava nas 200 e tantas horas de vídeo bruto, no documento de 112 páginas e nos três cadernos de anotações que Fernanda encontrou.
junto com o HD ficou parado por quase 3 anos debaixo de uma cama num quarto de Cuiabá em silêncio. Como a maioria das coisas que a BR163 guarda, sem barulho, sem urgência, sem que ninguém fosse procurar. Renato Mascarenhas morreu em 14 de janeiro de 2015, tinha 40 anos. A causa foi uma insuficiência cardíaca provocada por uma miocardite, uma inflamação no músculo do coração que pode se instalar de forma silenciosa e avançar sem sintomas claros por meses.
Os médicos disseram a Fernanda que não havia sinal de alerta que tivesse sido ignorado, que simplesmente havia acontecido. Renato estava no apartamento em Santo André, quando teve o episódio. Foi encontrado pelo vizinho no dia seguinte. Já não havia nada a fazer. Fernanda foi ao apartamento uma semana depois do enterro para recolher os pertences.
Encontrou o espaço de um homem que vivia com pouco. Poucos móveis, poucos livros, uma mesa com um computador portátil e vários cabos soltos. E debaixo da cama do quarto, dentro de uma caixa de papelão fechada com fita adesiva, o HD externo preto, um modelo de 500 GB, junto com os três cadernos de anotações e uma pasta com impressões de boletins de ocorrência e recortes de jornal.
Fernanda não sabia o que estava naquele HD. Renato nunca tinha falado dos detalhes do projeto com ela de forma aprofundada. Ela sabia que ele tinha feito o trabalho. Sabia que ele tinha parado, não sabia por exatamente ela levou tudo para casa. Ficou dois meses sem abrir o HD. Quando abriu, em março de 2015, o que encontrou era um disco com mais de 208 GB de material.
Havia pastas organizadas por nome dos entrevistados, por data, por trecho da estrada. havia uma pasta chamada análise conversões no documento de 112 páginas em diferentes estágios de revisão. Havia uma pasta com entrevistas que Renato tinha feito e depois excluído do fluxo principal, mas que guardou mesmo assim. E havia uma pasta com data de setembro de 2011.
Dentro dela havia três arquivos de vídeo. Dois estavam corrompidos e não abriam. O terceiro abria, mas sem áudio. Era uma filmagem de 11 minutos feita à noite dentro do quarto do hotel. A câmera estava apoiada na mesa, apontada para Renato, sentado na beira da cama. Ele falava, olhando para a câmera, mas o áudio estava corrompido.
Fernanda tentou recuperar o áudio com um técnico de informática em Cuiabá. Não foi possível. O que estava na tela era uma imagem de Renato falando para si mesmo, as escuras, com a luz fraca do abajur de hotel atrás dele. 11 minutos de imagem sem som. Em 2019, Fernanda concordou em conversar com uma jornalista independente chamada Raquel Aguiar, que estava trabalhando numa reportagem sobre desaparecimentos no trecho da BR160.
e três para um portal de jornalismo investigativo de Belém. Fernanda cedeu a teu acesso a partes do material. Algumas das entrevistas que Renato tinha feito foram parcialmente transcritas e publicadas. O caso ganhou alguma atenção naquele período. Um deputado estadual do Pará mencionou o assunto numa sessão da Assembleia Legislativa.
O Ministério Público Estadual disse que ia reanalisar os boletins de ocorrência dos 11 casos. Não há registro público de que essa reanálise tenha gerado algum resultado. Os 11 casos continuam oficialmente abertos. Nenhum deles tem culpado identificado. Nenhum deles tem corpo localizado. Na maioria dos casos, o HD externo de Renato está com Fernanda.
O documento de 112 páginas existe e para no meio de uma frase na última página. A frase começa dizendo que o que ele não conseguia fechar era a questão de por em todos aqueles anos nenhuma das famílias tinha recebido. E então para a BR163 foi sendo asfaltada ao longo dos anos 2010. O trecho entre Guarantã do Norte e Novo Progresso, que era de Terra Vermelha desde os anos 80, recebeu asfalto em etapas.
Com o asfalto vieram o sinal de celular, os postos de combustível, as câmeras da PRF, o trânsito mais intenso. A estrada, que era um corredor sem testemunhas, foi se tornando uma estrada que pode ser monitorada, rastreada, registrada. O que não mudou foi o passado. O que aconteceu entre 1987 e 2009 naquele trecho continua sem explicação.
Não porque não houvesse dados, mas porque os dados nunca foram tratados como parte de um mesmo problema. Eram peças de um quebra-cabeça guardadas em caixas separadas, em cidades diferentes, em delegacias que não se falavam. Renato Mascarenhas foi, com seus recursos limitados e sua câmera Sony, a única pessoa que tentou juntar essas peças e parou antes de terminar.
As famílias que ficaram esperando em sua maioria continuaram esperando. Neusa, a viúva de Zé Mauro, continuou em Rondonópolis. Seus filhos cresceram. Ela envelheceu. Em algum momento deixou de ligar para a delegacia porque a delegacia era sempre a mesma resposta. Mas ela disse numa das entrevistas de Renato que nunca tinha enterrado o marido na cabeça, que na cabeça ele ainda estava em algum lugar daquela estrada.
Ela disse que sabia que não era verdade, mas que o coração não tem como saber o que a cabeça sabe. A mãe de Wendel, em novo progresso, ainda estava na mesma rua quando Raquel Aguiar foi falar com ela em 2019. O envelope plástico com a certidão de nascimento e o bilhete da escola ainda estava na gaveta de cima da cômoda no quarto dela. Ela disse que abria a gaveta de vez em quando, não todos os dias, mas de vez em quando.
A família Cardoso não tem mais representante que continue procurando. Zelinha, a irmã de Nair, morreu em 2013. Os filhos de Zelinha não conheceram os Cardoso. O lote onde Geraldo e Nair iam morar foi revendido ou grilado ou virou fazenda de outra pessoa. Ninguém sabe. Ninguém foi verificar. O ramal no caminão 255, aquele que um caminhoneiro disse que tinha aparecido no mesmo período do desaparecimento de Zé Mauro, foi verificado por Renato em 2010.
estava fechado pela vegetação, que cresceu em mais de 20 anos. Ele mediu a vista e estimou que o ramal tinha uns 200 m antes de sumir na mata densa. Não tinha como entrar de carro, não entrou a pé. No documento de 112 páginas, há uma nota sobre esse ramal. Renato escreveu que se alguém um dia tivesse autoridade e recurso para entrar ali com equipamento adequado, deveria entrar, mas que provavelmente ninguém ia, provavelmente ninguém vai.
Essa frase fica no ar como um diagnóstico sem destinatário. A BR163 continua sendo percorrida todos os dias por caminhões carregados, carros de família, ônibus rurais com banco de couro rachado. O trecho que Renato filmou em silêncio pela janela do carro alugado agora tem asfalto. As árvores dos dois lados continuam lá. Os ramais que abrem para dentro da mata continuam lá, os que sobreviveram ao desmatamento das últimas décadas.
E 11 nomes continuam num registro de delegacia sem resposta. 11 histórias que começaram numa estrada comum e terminaram sem lugar para terminar. 11 pessoas que foram e não voltaram e cujas famílias seguiram vivendo com o peso disso, sem que o Estado tenha em nenhum momento tratado esse peso como uma dívida a ser paga.
Renato Mascarenhas tentou contar essa história, não conseguiu terminar, mas o que ele deixou existe. Está no HD, está no documento de 112 páginas, está nas vozes das pessoas que ele filmou e agora está aqui também. O que fica depois de uma história assim não é uma conclusão. Não há resolução. Não há culpado confirmado.
Não há família que tenha recebido o que merecia receber. O que fica é a imagem de mulheres como Neusa, como Eunice, como Zelinha, como a mãe de Wendel, que aprenderam a viver com uma ausência que nunca se transformou em luto completo, porque o luto completo exige um fim. E o fim nunca chegou. Elas não são exceção no Brasil.
são parte de uma realidade que o país conhece bem, mas que prefere não nomear de forma direta a realidade das famílias que buscam por conta própria o que o Estado não encontrou, que carregam por décadas uma pergunta sem resposta, que envelhecem com um envelope plástico numa gaveta ou uma roupa dobrada que nunca conseguem descartar.
Renato Mascarenhas foi a essas famílias com uma câmera e um caderno. Não tinha laboratório de perícia, não tinha mandado judicial, não tinha orçamento para contratar investigadores, tinha atenção, tinha tempo, tinha disposição de sentar e ouvir. Isso não foi suficiente para terminar o documentário, mas foi suficiente para fazer as famílias sentirem que alguém tinha por algumas horas tratado a ausência delas como algo que importava.
Às vezes é isso que sobra, às vezes é tudo. A estrada continua. Os ramais ainda existem. As perguntas de Renato estão no documento de 112 páginas, a maioria delas sem resposta e as 11 famílias